Site Confiável Como saber se um estudo científico de tratamento para covid é confiável ou não

  • André Biernath
  • Da BBC News Brasil em São Paulo

26 junho 2021

Crédito, Edilson Rodrigues/Agência Senado

Legenda da foto,

Senadores e depoentes citam vários estudos, que muitas vezes trazem conclusões contraditórias

A microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, acredita que ninguém precisa ser especialista em método científico para separar o joio do trigo e diferenciar um estudo confiável de outro com conclusões duvidosas.

“É possível, sim, desenvolver o mínimo de senso crítico para não aceitar todas as informações que são divulgadas”, diz.

Esse, inclusive, foi o tema principal da participação dela na CPI da Covid, numa sessão realizada no dia 11 de junho: Pasternak contextualizou como as pesquisas são feitas, quais são os resultados mais confiáveis e como se constroem os consensos científicos.

Mas mesmo com toda a explicação da microbiologista, os senadores continuaram a citar trabalhos controversos e com falhas graves, especialmente quando o tema era o “tratamento precoce” da covid-19 e o uso de remédios como a hidroxicloroquina e a ivermectina, cuja ineficácia está mais que comprovada.

Essa, aliás, tem sido a tônica dos debates entre os membros da comissão parlamentar: não raro, uma pessoa cita o estudo X e outra se lembra da pesquisa Y, que apresentam resultados contraditórios.

No meio disso, participantes e espectadores ficam perdidos: afinal, em quem (ou no quê) acreditar?

O primeiro passo para não cair em armadilhas é entender direitinho o que é um estudo observacional.

O pontapé inicial

Você já deve ter ouvido essa frase por aí: tal cidade/estado/país usou o medicamento A, B ou C e os casos ou as mortes por covid-19 “despencaram” por lá.

Na CPI, locais como Rancho Queimado (SC), Porto Feliz (SP) ou Porto Seguro (BA) sempre aparecem como casos de sucesso no combate à pandemia por supostamente terem usado o chamado “kit covid” nos pacientes infectados com o coronavírus.

O problema é que exemplos como esses estão cercados de armadilhas e têm pouco valor científico.

Eles se encaixam nos chamados estudos observacionais: são trabalhos em que os especialistas olham para o que aconteceu com determinado grupo de pessoas após uma intervenção.

Muitas vezes, como parece ser o caso dessas três cidades citadas anteriormente, as análises também não levam em conta toda a realidade e chegam a omitir fatos, números ou a verdadeira situação da pandemia.

Para compreender melhor esse conceito, vamos usar uma situação hipotética: suponha que a prefeitura de São Paulo tenha instalado aparelhos de musculação numa praça localizada num bairro da Zona Leste da cidade.

Passados alguns meses, o posto de saúde que atende a região começa a reparar que os moradores da vizinhança emagreceram, estão com a pressão arterial mais baixa e até tiveram uma redução nos níveis de colesterol.

Um estudo observacional, portanto, poderia relacionar os dois eventos (novos equipamentos de ginástica e melhora nos indicadores de saúde cardiovascular) e chegar à conclusão de que uma coisa está ligada à outra.

Ou seja: a disponibilidade dos aparelhos incentivou a prática de atividade física na comunidade e isso, por sua vez, repercutiu bem e…

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57575810

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